Viver o
Luto
Lidando
com Perdas
“A vida é uma
caixinha de surpresas...”
“Viva
como se fosse morrer amanha...
Aprenda
como se fosse viver para sempre!!!”
Mohandas
Karamchand Gandhi
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arece ser de fato
verdade essa idéia de que a vida é uma caixinha de
surpresas.
Normalmente temos essa
sensação porque é inerente à maioria
acreditar sempre no melhor, ser otimista, acreditar que tudo
dará certo, que haverá cura, que vamos dar um jeito, que
ainda não é o final... e mais uma infinidade de
raciocínios que são alegres, otimistas e positivos.
No meio a tantos
pensamentos e raciocínios positivos, às vezes a vida se
mostra como “caixinha de surpresas” e de fato nos
surpreende com algo terrível!!!
Esse algo
terrível pode ser a perda de alguém ou ainda pode ser de
situações de perda por quaisquer razões ou
situações como:
- perda de um parente
- amigo
- cônjuge
- filho
- parente
-
separação conjugal
- perda de emprego
-falência
- queda significativa
na sua condição social
-perda definitiva de
um ideal, meta ou sonho
- mudança de
cidade ou estado não escolhida e sim imposta
E quando a vida nos
surpreende com uma destas surpresas, normalmente somos pegos de
“surpresa”.
É um choque!
Muitos passam por um
processo extremamente doloroso física e emocionalmente.
Em especial quando a
perda é a de alguém querido.
Vamos tentar entender
as etapas pelas quais se passa no “pós-perda” e
assim avaliar como estamos nos saindo nesse processo de
recuperação.
Dentre as fases do
luto envolvido em qualquer perda estão:
- choro
- angustia
- desespero
-
sensação de incapacidade de superação
- sofrimento
físico
- sofrimento emocional
- revolta
- raiva
- medo
- estresse
- depressão
- desinteresse por
tudo ou quase tudo
- ausência de
alegria ou prazer
- tentativa de se
manter isolado
- falta de vontade de
fazer os afazeres diários e rotineiros
- falta de vontade de
fazer qualquer coisa
- tentativa de fuga se
envolvendo com muitos compromissos ou atividades
-
Sensação de ter sido roubado, ou como se algo foi
brutalmente arrancado de si
Não
necessariamente a pessoa passará por todas essas fases ou deve
esperar passar por tudo isso.
Cada pessoa desenvolve
e vive seu luto a sua maneira que depende de seu contexto familiar,
social e de suas expectativas e crenças.
Além do grau
que a perda representa em sua vida e em seu contexto de vida.
O tempo: não existe um tempo
pré-determinado para se sentir ou viver o luto e, portanto
não há como se afirmar com quanto tempo esse luto
termina, quando será superado ou terminado o luto e o pesar.
De forma
genérica podemos dizer que pode durar de meses a dois anos
aproximadamente.
Porém alguns
aspectos não bem resolvidos podem persistir, continuar vivendo o
luto e consequentemente ainda sofrer com isso.
Ao mesmo tempo em que
cada pessoa vive à sua própria maneira esta fase e a
supera ao seu próprio modo e tempo, existem muitos
pontos em comum em todas as pessoas que vivem um luto.
As principais fases em
comum com os que passam pelo luto:
- choque – leva a falta de
aceitação da perda – ou fase de negação
- revolta – leva aos
sentimentos relacionados a raiva, contra tudo e todos
- mágoa – que pode ser
sentida por culpas ou remorsos, consigo mesmo ou com outros
- porque – nessa fase se
questiona o “eu”, “comigo”, “ele,
ela”
- isolamento – é comum
aliado à busca de paz e entendimento/aceitação do
imutável
Vale ressaltar que
essas fases acontecem, via de regra, mais ou menos nessa
seqüência, porém cada indivíduo sente essas
fases de acordo com situações familiares, sociais e
religiosas que lhe são peculiares e inerentes.
Pode acontecer de
certas fases se repetirem com alguma freqüência, pode
acontecer de se estagnar em determinada fase e ainda pode passar pelas
fases conseguindo perceber e aprender com o luto vivido e supera-lo
plenamente.
A mais importante
e difícil etapa para se "viver o luto" é ACEITAR a perda.
A
superação do luto envolve a aceitação da
mudança ocorrida na pessoa, ela
ressurge após o luto com novos aprendizados, novas
competências adquiridas durante o processo.
Se recusar a aceitar e
crescer com o aprendizado existente no luto, é estagnar em uma
das fases e para vencer o luto e ultrapassá-lo pode ser
necessária a ajuda da família, amigos, psicólogo
ou outros meios cabíveis e aplicáveis.
Até aqui vimos
sobre as fases do luto, de como ele nos afeta ou pode afetar e que
há nele um aprendizado.
O luto gera uma
mudança e temos de aceitar e tentar tirar o melhor dele para dar
seqüência as nossas vidas, pois a vida não
para e não espera!!!
Então temos que
ter capacidade para lidar e conviver com o luto e supera-lo.
Para a
superação do luto:
- Alguns precisam
falar e, às vezes, muito sobre a perda.
É preciso
deixar claro para a família e amigos que isso te faz bem, que
você quer e precisa disso.
Pois a tendência
natural dos demais é só falar da perda longe de quem
sofreu com a perda.
Outros preferem
não falar sobre a perda e devem também ser bem claros e
objetivos em sinalizar isso para amigos e familiares até colegas
de trabalho se for o caso.
- É comum
aparecer o sentimento de culpa, de que não se fez o bastante,
que não se percebeu algo, que não esteve presente o
suficiente e etc.
Lembrar nesse momento
que nenhum de nós tem como prever o futuro e assim o que se
sente como culpa na verdade é apenas a falta de
consciência ou de aviso de aquela situação viria a
ocorrer.
Ninguém
é perfeito e ninguém é onipotente para ter feito
tudo!!!
- Natural sentir
raiva, medo, mágoa e até revolta.
É importante
expressar esses sentimentos, não nega-los nem se envergonhar de
senti-los.
A
aceitação da perda aliada ao tempo fará com que
esses sentimentos desapareçam.
- Existirá
talvez o momento em que se idealiza a pessoa perdida como perfeita,
absoluta e isso faz surgir a sensação de falha, de erros
cometidos.
Lembre-se: essa pessoa
que se foi, era uma pessoa real.
Possuía uma
gama de qualidades e defeitos como todo e qualquer ser humano.
O tempo e
aceitação trarão tranqüilidade sobre essa
sensação de falha ou incompetência.
- Surgirá a
época em que se tem vontade apenas de se estar sozinho, isolado
de tudo e todos.
É importante
talvez, em uma pequena medida, para uma maior
introspecção que leve à aceitação,
mas não se pode permitir que a fase do isolamento se sobreponhaaos
compromissos e envolvimentos familiares, sociais e profissionais.
É bom lembrar
que não se está só, que outras pessoas
também sofrem com a mesma perda ou são solidárias
com sua dor.
Assim sendo, há
que se lutar pelo "não isolamento".
- Nos primeiros meses
ou até durante o primeiro ano após a perda, possivelmente
a pessoa estará pouco apta a tomar decisões maiores, como
mudança de emprego, de cidade, etc.
É bom consultar
um amigo ou parente de confiança antes de se tomar uma
decisão que não possa ser adiada para após o luto.
- Muitas vezes surge o
sofrimento de se perceber que você não será mais o
mesmo depois disso.
Mas precisa se levar
em conta que somos seres em constante mudança e que tudo o que
acontece em nossa vida nos afeta, nos muda e a perda trará
mudanças sim, mas não precisam ser necessariamente
mudanças para pior, por exemplo:
- A perda pode fazer
rever conceitos e prioridades.
Talvez antes se desse
muita atenção a detalhes ou coisas “pequenas”
e agora se passa a ter novos valores, reconhecendo a fragilidade da
vida ao mesmo tempo em que se percebe o quão valiosa ela
é.
Então
mudanças são esperadas e naturais e não deve nos
assustar nem fazer com que se tente resistir a elas.
- Mantenha um olhar
mais cauteloso/atento ao calendário, pois existirão
datas especiais ao longo do ano que você se sentirá
especialmente mais triste ou depressivo, como aniversário da
pessoa perdida, natal, páscoa, reveillon e etc.
Se programe para
não estar só nestas datas, cerque-se de amigos ou
familiares e perceba a vida continuando e dando sempre oportunidades
para o aprendizado, o crescimento e a felicidade.
- Se permitir ser
feliz novamente!!!
Essa
fase é normalmente difícil, pois tende-se a ter
a sensação de culpa por voltar a ser feliz...
A pessoa não se
sente digna e assim luta em não se permitir voltar a ser feliz.
Lembre-se que a vida continua de fato!!!
E isso implica em
voltar a ter felicidade e prazer em estar vivo.
Prepare-se para voltar
a ser feliz e promova coisas e atitudes que te permitam resgatar sua
felicidade.
- É comum
após uma grande perda, se afastar do trabalho, tirando
férias ou uma licença e isso pode de fato ser
benéfico, porém esteja pronto mentalmente a voltar a sua
rotina profissional.
Afinal outras pessoas
dependem de você e de seu trabalho e você depende de seu
trabalho para sua reestruturação no seu novo contexto de
vida.
- Há que se
libertar de idéias focadas no passado e começar a criar
perspectivas futuras válidas e reais.
O passado é
imutável e temos que aprender a aceitar e conviver com o que
é imutável.
Porém o futuro
é terreno fértil para desenvolvermos novos sonhos,
perspectivas e colocar em prática novos aprendizados.
Ficar focado no
passado e com questionamentos irreais como “que as coisas
deveriam ser diferentes”, só levará a
frustração e depressão.
- O sofrimento,
portanto, é natural frente a uma grande perda, no entanto se o
sofrimento de uma ou mais de uma forma permanecer por um período
demasiadamente longo, talvez este sofrimento esteja servindo de
‘cortina’ para encobrir algum outro problema, outrora
latente, que se manifestou após a perda, o que torna
necessária a busca do problema central que pode estar ofuscado
pela perda.
- É bom lembrar
que ninguém é um super-herói e nem tem a
obrigação de passar por tudo sozinho.
A família,
amigos e o convívio social podem ajudar e talvez até
bastar.
No entanto jamais se
sinta mal em perceber que precisa de ajuda profissional.
A maioria das pessoas
que procuram ajuda de um psicólogo, são pessoas normais
que procuram um profissional para lidar com seus problemas pessoais,
afetivos, profissionais, para aprender a lidar e superar o sofrimento
gerado por uma perda ou revés ou ainda pessoas que estão
passando por uma crise.
O profissional de
saúde, como o psicólogo/psicoterapeuta, é o
profissional que estará ao seu lado para compartilhar suas
dores, temores, culpas, revoltas, seus conflitos íntimos e o que
mais estiver atrapalhando o exercício pleno da sua felicidade
como pessoa.
Não se
há de imaginar que recorrer a um terapeuta é para quem
tem “problemas mentais” ou é “louco”.
A função
do terapeuta e o exercício de sua profissão se dão
exatamente com pessoas normais que passam por dificuldades emocionais e
que através da ajuda de um especialista vencem com maior
facilidade uma fase difícil e são ajudadas a tirar o
melhor aprendizado possível para seu crescimento e
desenvolvimento como pessoas normais, felizes e em paz consigo mesmos.
Mas é sempre
uma decisão pessoal e intransferível a de buscar ajuda
profissional para vencer ou aprender a lidar com seus sentimentos e
emoções.
Cabe a cada um
decidir e determinar “o seu momento", o
“quanto” e o “até quando” irá
sofrer ou suportar o sofrimento.