Viver o Luto

Lidando com Perdas

 

 

Paulo Nicolino

2009 

 

 


“A vida é uma caixinha de surpresas...”

 
“Viva como se fosse morrer amanha...

Aprenda como se fosse viver para sempre!!!”

 

Mohandas Karamchand Gandhi

 

P

arece ser de fato verdade essa idéia de que a vida é uma caixinha de surpresas.

 

Normalmente temos essa sensação porque é inerente à maioria acreditar sempre no melhor, ser otimista, acreditar que tudo dará certo, que haverá cura, que vamos dar um jeito, que ainda não é o final... e mais uma infinidade de raciocínios que são alegres, otimistas e positivos.

 

No meio a tantos pensamentos e raciocínios positivos, às vezes a vida se mostra como “caixinha de surpresas” e de fato nos surpreende com algo terrível!!!

 

Esse algo terrível pode ser a perda de alguém ou ainda pode ser de situações de perda por quaisquer razões ou situações como:

 

- perda de um parente

            - amigo

- cônjuge

- filho

- parente

- separação conjugal

- perda de emprego

-falência

- queda significativa na sua condição social

-perda definitiva de um ideal, meta ou sonho

- mudança de cidade ou estado não escolhida e sim imposta

 

E quando a vida nos surpreende com uma destas surpresas, normalmente somos pegos de “surpresa”.

 

É um choque!

Muitos passam por um processo extremamente doloroso física e emocionalmente.

 

Em especial quando a perda é a de alguém querido.

 

Vamos tentar entender as etapas pelas quais se passa no “pós-perda” e assim avaliar como estamos nos saindo nesse processo de recuperação.

 

Dentre as fases do luto envolvido em qualquer perda estão:

- choro

- angustia

- desespero

- sensação de incapacidade de superação

- sofrimento físico

- sofrimento emocional

- revolta

- raiva

- medo

- estresse

- depressão

- desinteresse por tudo ou quase tudo

- ausência de alegria ou prazer

- tentativa de se manter isolado

- falta de vontade de fazer os afazeres diários e rotineiros

- falta de vontade de fazer qualquer coisa

- tentativa de fuga se envolvendo com muitos compromissos ou atividades

- Sensação de ter sido roubado, ou como se algo foi brutalmente arrancado de si

 

Não necessariamente a pessoa passará por todas essas fases ou deve esperar passar por tudo isso.

 

Cada pessoa desenvolve e vive seu luto a sua maneira que depende de seu contexto familiar, social e de suas expectativas e crenças.

 

Além do grau que a perda representa em sua vida e em seu contexto de vida.

 

O tempo: não existe um tempo pré-determinado para se sentir ou viver o luto e, portanto não há como se afirmar com quanto tempo esse luto termina, quando será superado ou terminado o luto e o pesar.

 

De forma genérica podemos dizer que pode durar de meses a dois anos aproximadamente.

 

Porém alguns aspectos não bem resolvidos podem persistir, continuar vivendo o luto e consequentemente ainda sofrer com isso.

 

Ao mesmo tempo em que cada pessoa vive à sua própria maneira esta fase e a supera ao seu próprio modo e tempo, existem muitos pontos em comum em todas as pessoas que vivem um luto.

 

As principais fases em comum com os que passam pelo luto:

- choque – leva a falta de aceitação da perda – ou fase de negação

- revolta – leva aos sentimentos relacionados a raiva, contra tudo e todos

- mágoa – que pode ser sentida por culpas ou remorsos, consigo mesmo ou com outros

- porque – nessa fase se questiona o “eu”, “comigo”, “ele, ela”

- isolamento – é comum aliado à busca de paz e entendimento/aceitação do imutável

 

Vale ressaltar que essas fases acontecem, via de regra, mais ou menos nessa seqüência, porém cada indivíduo sente essas fases de acordo com situações familiares, sociais e religiosas que lhe são peculiares e inerentes.

 

Pode acontecer de certas fases se repetirem com alguma freqüência, pode acontecer de se estagnar em determinada fase e ainda pode passar pelas fases conseguindo perceber e aprender com o luto vivido e supera-lo plenamente.

 

A mais importante e difícil etapa para se "viver o luto" é ACEITAR a perda.

 

A superação do luto envolve a aceitação da mudança ocorrida na pessoa, ela ressurge após o luto com novos aprendizados, novas competências adquiridas durante o processo.

 

Se recusar a aceitar e crescer com o aprendizado existente no luto, é estagnar em uma das fases e para vencer o luto e ultrapassá-lo pode ser necessária a ajuda da família, amigos, psicólogo ou outros meios cabíveis e aplicáveis.

 

Até aqui vimos sobre as fases do luto, de como ele nos afeta ou pode afetar e que há nele um aprendizado.

 

O luto gera uma mudança e temos de aceitar e tentar tirar o melhor dele para dar seqüência as nossas vidas, pois a vida não para e não espera!!!

 

Então temos que ter capacidade para lidar e conviver com o luto e supera-lo.

 

 

Para a superação do luto:

 

- Alguns precisam falar e, às vezes, muito sobre a perda.

 

É preciso deixar claro para a família e amigos que isso te faz bem, que você quer e precisa disso.

 

Pois a tendência natural dos demais é só falar da perda longe de quem sofreu com a perda.

 

Outros preferem não falar sobre a perda e devem também ser bem claros e objetivos em sinalizar isso para amigos e familiares até colegas de trabalho se for o caso.

 

- É comum aparecer o sentimento de culpa, de que não se fez o bastante, que não se percebeu algo, que não esteve presente o suficiente e etc.

 

Lembrar nesse momento que nenhum de nós tem como prever o futuro e assim o que se sente como culpa na verdade é apenas a falta de consciência ou de aviso de aquela situação viria a ocorrer.

 

Ninguém é perfeito e ninguém é onipotente para ter feito tudo!!!

 

- Natural sentir raiva, medo, mágoa e até revolta.

 

É importante expressar esses sentimentos, não nega-los nem se envergonhar de senti-los.

 

A aceitação da perda aliada ao tempo fará com que esses sentimentos desapareçam.

 

- Existirá talvez o momento em que se idealiza a pessoa perdida como perfeita, absoluta e isso faz surgir a sensação de falha, de erros cometidos.

 

Lembre-se: essa pessoa que se foi, era uma pessoa real.

 

Possuía uma gama de qualidades e defeitos como todo e qualquer ser humano.

 

O tempo e aceitação trarão tranqüilidade sobre essa sensação de falha ou incompetência.

 

- Surgirá a época em que se tem vontade apenas de se estar sozinho, isolado de tudo e todos.

 

É importante talvez, em uma pequena medida, para uma maior introspecção que leve à aceitação, mas não se pode permitir que a fase do isolamento se sobreponhaaos compromissos e envolvimentos familiares, sociais e profissionais.

 

É bom lembrar que não se está só, que outras pessoas também sofrem com a mesma perda ou são solidárias com sua dor.

 

Assim sendo, há que se lutar pelo "não isolamento".

 

- Nos primeiros meses ou até durante o primeiro ano após a perda, possivelmente a pessoa estará pouco apta a tomar decisões maiores, como mudança de emprego, de cidade, etc.

 

É bom consultar um amigo ou parente de confiança antes de se tomar uma decisão que não possa ser adiada para após o luto.

 

- Muitas vezes surge o sofrimento de se perceber que você não será mais o mesmo depois disso.

 

Mas precisa se levar em conta que somos seres em constante mudança e que tudo o que acontece em nossa vida nos afeta, nos muda e a perda trará mudanças sim, mas não precisam ser necessariamente mudanças para pior, por exemplo:

 

- A perda pode fazer rever conceitos e prioridades.

 

Talvez antes se desse muita atenção a detalhes ou coisas “pequenas” e agora se passa a ter novos valores, reconhecendo a fragilidade da vida ao mesmo tempo em que se percebe o quão valiosa ela é.

 

Então mudanças são esperadas e naturais e não deve nos assustar nem fazer com que se tente resistir a elas.

 

- Mantenha um olhar mais cauteloso/atento ao calendário, pois existirão datas especiais ao longo do ano que você se sentirá especialmente mais triste ou depressivo, como aniversário da pessoa perdida, natal, páscoa, reveillon e etc.

 

Se programe para não estar só nestas datas, cerque-se de amigos ou familiares e perceba a vida continuando e dando sempre oportunidades para o aprendizado, o crescimento e a felicidade.

 

- Se permitir ser feliz novamente!!!

 

Essa fase é normalmente difícil, pois tende-se a ter a sensação de culpa por voltar a ser feliz...

 

A pessoa não se sente digna e assim luta em não se permitir voltar a ser feliz. Lembre-se que a vida continua de fato!!!

 

E isso implica em voltar a ter felicidade e prazer em estar vivo.

 

Prepare-se para voltar a ser feliz e promova coisas e atitudes que te permitam resgatar sua felicidade.

 

- É comum após uma grande perda, se afastar do trabalho, tirando férias ou uma licença e isso pode de fato ser benéfico, porém esteja pronto mentalmente a voltar a sua rotina profissional.

 

Afinal outras pessoas dependem de você e de seu trabalho e você depende de seu trabalho para sua reestruturação no seu novo contexto de vida.

 

- Há que se libertar de idéias focadas no passado e começar a criar perspectivas futuras válidas e reais.

 

O passado é imutável e temos que aprender a aceitar e conviver com o que é imutável.

 

Porém o futuro é terreno fértil para desenvolvermos novos sonhos, perspectivas e colocar em prática novos aprendizados.

 

Ficar focado no passado e com questionamentos irreais como “que as coisas deveriam ser diferentes”, só levará a frustração e depressão.

 

- O sofrimento, portanto, é natural frente a uma grande perda, no entanto se o sofrimento de uma ou mais de uma forma permanecer por um período demasiadamente longo, talvez este sofrimento esteja servindo de ‘cortina’ para encobrir algum outro problema, outrora latente, que se manifestou após a perda, o que torna necessária a busca do problema central que pode estar ofuscado pela perda.

 

- É bom lembrar que ninguém é um super-herói e nem tem a obrigação de passar por tudo sozinho.

 

A família, amigos e o convívio social podem ajudar e talvez até bastar.

 

No entanto jamais se sinta mal em perceber que precisa de ajuda profissional.

 

A maioria das pessoas que procuram ajuda de um psicólogo, são pessoas normais que procuram um profissional para lidar com seus problemas pessoais, afetivos, profissionais, para aprender a lidar e superar o sofrimento gerado por uma perda ou revés ou ainda pessoas que estão passando por uma crise.

 

O profissional de saúde, como o psicólogo/psicoterapeuta, é o profissional que estará ao seu lado para compartilhar suas dores, temores, culpas, revoltas, seus conflitos íntimos e o que mais estiver atrapalhando o exercício pleno da sua felicidade como pessoa.

 

Não se há de imaginar que recorrer a um terapeuta é para quem tem “problemas mentais” ou é “louco”.

 

A função do terapeuta e o exercício de sua profissão se dão exatamente com pessoas normais que passam por dificuldades emocionais e que através da ajuda de um especialista vencem com maior facilidade uma fase difícil e são ajudadas a tirar o melhor aprendizado possível para seu crescimento e desenvolvimento como pessoas normais, felizes e em paz consigo mesmos.

 

Mas é sempre uma decisão pessoal e intransferível a de buscar ajuda profissional para vencer ou aprender a lidar com seus sentimentos e emoções.

 

Cabe a cada um decidir e determinar “o seu momento", o “quanto” e o “até quando” irá sofrer ou suportar o sofrimento.

 

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