Lidando com
perdas e vivendo o luto
“A vida é uma caixinha de
surpresas...”
Parece ser de fato verdade essa
idéia de que a vida é uma caixinha de surpresas.
Normalmente temos essa
sensação porque é inerente à maioria
acreditar sempre no melhor, ser otimista, acreditar que tudo
dará certo, que haverá cura, que vamos dar um jeito, que
ainda não é o final... e mais
uma infinidade de raciocínios que são alegres, otimistas
e positivos.
No meio a tantos pensamentos e
raciocínios positivos, às vezes a vida se mostra como
“caixinha de surpresas” e de fato nos surpreende com algo
terrível!!!
Esse algo terrível pode ser a perda
de alguém ou ainda pode ser de situações de perda
por quaisquer razões ou situações como:
- perda de um:
- parente
-
amigo
-
cônjuge
-
filho
-
parente
- separação conjugal
- perda de emprego
-falência
- queda significativa na sua
condição social
-perda definitiva de um ideal, meta ou sonho
- mudança de cidade ou estado
não escolhida e sim imposta
E quando a vida nos surpreende com uma
destas surpresas, normalmente somos pegos de “surpresa”.
É um choque!
Muitos passam por um processo extremamente
doloroso física e emocionalmente.
Em especial quando a perda é a de
alguém querido.
Vamos tentar entender as etapas pelas quais
se passa no “pós-perda”
e assim avaliar como estamos nos saindo nesse processo de
recuperação.
Dentre as fases do luto envolvido em
qualquer perda estão:
- choro
- angustia
- desespero
- sensação de incapacidade de
superação
- sofrimento físico
- sofrimento emocional
- revolta
- raiva
- medo
- estresse
- depressão
- desinteresse por tudo ou quase tudo
- ausência de alegria ou prazer
- tentativa de se manter isolado
- falta de vontade de fazer os afazeres
diários e rotineiros
- falta de vontade de fazer qualquer coisa
- tentativa de fuga se envolvendo com
muitos compromissos ou atividades
- Sensação de ter sido
roubado, ou como se algo foi brutalmente arrancado de si
Não necessariamente a pessoa
passará por todas essas fases ou deve esperar passar por tudo
isso.
Cada pessoa desenvolve e vive seu luto a
sua maneira que depende de seu contexto familiar, social e de suas
expectativas e crenças.
Além do grau que a perda representa
em sua vida e em seu contexto de vida.
O tempo: não existe um tempo
pré-determinado para se sentir ou viver o luto e, portanto
não há como se afirmar com quanto tempo esse luto
termina, quando será superado ou terminado o luto e o pesar.
De forma genérica podemos dizer que
pode durar de meses a dois anos aproximadamente.
Porém alguns aspectos não bem
resolvidos podem persistir, continuar
vivendo o luto e consequentemente ainda sofrer com isso.
Ao mesmo tempo em que cada pessoa vive
à sua própria maneira esta fase e a supera
ao seu próprio modo e tempo, existem muitos pontos em
comum em todas as pessoas que vivem um luto.
As principais fases em comum com os que
passam pelo luto:
- choque – leva a
falta de aceitação da perda – ou fase de negação
- revolta – leva aos
sentimentos relacionados a raiva, contra
tudo e todos
- mágoa – que
pode ser sentida por culpas ou remorsos, consigo mesmo ou com outros
- porque – nessa
fase se questiona o “eu”, “comigo”, “ele,
ela”
- isolamento –
é comum aliado à busca de paz e
entendimento/aceitação do imutável
Vale ressaltar que essas fases acontecem, via de regra, mais ou menos nessa
seqüência, porém cada indivíduo sente essas
fases de acordo com situações familiares, sociais e
religiosas que lhe são peculiares e inerentes.
Pode acontecer de certas fases se repetirem
com alguma freqüência, pode acontecer de se estagnar em
determinada fase e ainda pode passar pelas fases conseguindo perceber e
aprender com o luto vivido e supera-lo plenamente.
A mais importante e
difícil etapa para se "viver o luto" é ACEITAR
a perda.
A superação do luto
envolve a aceitação da mudança ocorrida na pessoa, ela ressurge após o
luto com novos aprendizados, novas competências adquiridas
durante o processo.
Se recusar a aceitar e crescer com o
aprendizado existente no luto, é estagnar em uma das fases e
para vencer o luto e ultrapassá-lo pode ser necessária a ajuda da família, amigos,
psicólogo ou outros meios cabíveis e aplicáveis.
Até aqui vimos sobre as fases do
luto, de como ele nos afeta ou pode afetar e que há nele um
aprendizado.
O luto gera uma mudança e temos de
aceitar e tentar tirar o melhor dele para dar
seqüência as nossas vidas, pois a vida não
para e não espera!!!
Então temos que ter capacidade para
lidar e conviver com o luto e supera-lo.
Para a superação do luto:
- Alguns precisam falar e, às vezes,
muito sobre a perda.
É preciso deixar claro para a
família e amigos que isso te faz bem, que você quer e
precisa disso.
Pois a tendência natural dos demais
é só falar da perda longe de quem sofreu com a perda.
Outros preferem não falar sobre a
perda e devem também ser bem claros e objetivos em sinalizar
isso para amigos e familiares até colegas de trabalho se for o
caso.
- É comum aparecer o sentimento de
culpa, de que não se fez o bastante, que não se percebeu
algo, que não esteve presente o suficiente e etc.
Lembrar nesse momento que nenhum de
nós tem como prever o futuro e assim o que se sente como culpa
na verdade é apenas a falta de consciência ou de aviso de
aquela situação viria a ocorrer.
Ninguém é perfeito e
ninguém é onipotente para ter feito tudo!!!
- Natural sentir raiva, medo, mágoa
e até revolta.
É importante expressar esses
sentimentos, não nega-los nem se envergonhar de senti-los.
A aceitação da perda aliada
ao tempo fará com que esses sentimentos desapareçam.
- Existirá talvez o momento em que
se idealiza a pessoa perdida como perfeita, absoluta e isso faz surgir a sensação de falha, de erros
cometidos.
Lembre-se: essa pessoa que se foi, era uma pessoa real.
Possuía uma gama de qualidades e
defeitos como todo e qualquer ser humano.
O tempo e aceitação
trarão tranqüilidade sobre essa sensação de
falha ou incompetência.
- Surgirá a época em que se
tem vontade apenas de se estar sozinho, isolado de tudo e todos.
É importante talvez, em uma pequena
medida, para uma maior introspecção que leve
à aceitação, mas não se pode permitir que a
fase do isolamento se sobreponha aos
compromissos e envolvimentos familiares, sociais e profissionais.
É bom lembrar que não se
está só, que outras pessoas também sofrem com a
mesma perda ou são solidárias com sua dor.
Assim sendo, há que se lutar pelo
"não isolamento".
- Nos primeiros meses ou até durante
o primeiro ano após a perda, possivelmente a pessoa
estará pouco apta a tomar decisões maiores, como
mudança de emprego, de cidade, etc.
É bom consultar um amigo ou parente
de confiança antes de se tomar uma decisão que não
possa ser adiada para após o luto.
- Muitas vezes surge o sofrimento de se
perceber que você não será mais o mesmo depois
disso.
Mas precisa se levar em conta que somos
seres em constante mudança e que tudo o que acontece em nossa
vida nos afeta, nos muda e a perda trará mudanças sim,
mas não precisam ser necessariamente mudanças para pior,
por exemplo:
- A perda pode fazer rever conceitos e
prioridades.
Talvez antes se desse muita
atenção a detalhes ou coisas “pequenas” e
agora se passa a ter novos valores, reconhecendo a fragilidade da vida
ao mesmo tempo em que se percebe o quão valiosa ela é.
Então mudanças são
esperadas e naturais e não deve nos assustar nem fazer com que
se tente resistir a elas.
- Mantenha um olhar mais
cauteloso/atento ao calendário, pois existirão datas
especiais ao longo do ano que você se sentirá
especialmente mais triste ou depressivo, como aniversário da
pessoa perdida, natal, páscoa, reveillon e etc.
Se programe para não estar só
nestas datas, cerque-se de amigos ou familiares e perceba a vida
continuando e dando sempre oportunidades para o aprendizado, o
crescimento e a felicidade.
- Se permitir ser feliz novamente!!!
Essa fase é normalmente
difícil, pois tende-se a ter a
sensação de culpa por voltar a ser feliz...
A pessoa não se sente digna e assim
luta em não se permitir voltar a ser feliz. Lembre-se que a vida
continua de fato!!!
E isso implica em voltar a ter felicidade e
prazer em estar vivo.
Prepare-se para voltar a ser feliz e
promova coisas e atitudes que te permitam resgatar sua felicidade.
- É comum após uma grande
perda, se afastar do trabalho, tirando férias ou uma
licença e isso pode de fato ser benéfico, porém
esteja pronto mentalmente a voltar a sua rotina profissional.
Afinal outras pessoas dependem de
você e de seu trabalho e você depende de seu trabalho para
sua reestruturação no seu novo contexto de vida.
- Há que se libertar de
idéias focadas no passado e começar a criar perspectivas
futuras válidas e reais.
O passado é imutável e temos
que aprender a aceitar e conviver com o que é imutável.
Porém o futuro é terreno
fértil para desenvolvermos novos sonhos, perspectivas e colocar
em prática novos aprendizados.
Ficar focado no passado e com
questionamentos irreais como “que as coisas
deveriam ser diferentes”,
só levará a frustração e depressão.
- O sofrimento, portanto, é natural
frente a uma grande perda, no entanto se o sofrimento de uma ou mais de
uma forma permanecer por um período demasiadamente longo, talvez
este sofrimento esteja servindo de ‘cortina’ para encobrir
algum outro problema, outrora latente, que se manifestou após a
perda, o que torna necessária a busca do problema central que
pode estar ofuscado pela perda.
- É bom lembrar que ninguém
é um super-herói e nem tem a obrigação de
passar por tudo sozinho.
A família, amigos e o
convívio social podem ajudar e talvez até bastar.
No entanto jamais se sinta mal em perceber
que precisa de ajuda profissional.
A maioria das pessoas que procuram ajuda de
um psicólogo, são pessoas normais que procuram um
profissional para lidar com seus problemas pessoais, afetivos,
profissionais, para aprender a lidar e superar o sofrimento gerado por
uma perda ou revés ou ainda pessoas que estão passando
por uma crise.
O profissional de saúde, como o
psicólogo/psicoterapeuta, é o profissional que
estará ao seu lado para compartilhar suas dores, temores,
culpas, revoltas, seus conflitos íntimos e o que mais estiver
atrapalhando o exercício pleno da sua felicidade como pessoa.
Não se há de imaginar que
recorrer a um terapeuta é para quem tem “problemas
mentais” ou é “louco”.
A função do terapeuta e o
exercício de sua profissão se dão exatamente com
pessoas normais que passam por dificuldades emocionais e que
através da ajuda de um especialista vencem com maior facilidade
uma fase difícil e são ajudadas a tirar o melhor
aprendizado possível para seu crescimento e desenvolvimento como
pessoas normais, felizes e em paz consigo mesmos.
Mas é sempre uma decisão
pessoal e intransferível a de buscar ajuda profissional para
vencer ou aprender a lidar com seus sentimentos e
emoções.
Cabe a cada um decidir e determinar
“o seu momento", o “quanto” e o
“até quando” irá sofrer ou suportar o
sofrimento.
Paulo Nicolino
Psicólogo
Outubro/2009
paulo@nicolino.com.br